Uma mina compra um gerador montado na Alemanha com componentes chineses, e a estatística bilateral registra apenas a Alemanha. É essa dependência invisível que o índice de exposição geopolítica mede. (imagem: MT / Adobe Stock)
JSTOR: A Dependência Que Não Aparece na Estatística de Comércio Bilateral
Uma mina de cobre chilena compra um gerador a diesel. O gerador foi montado na Alemanha, com componentes fabricados na China. A estatística de importações bilaterais registra uma transação Alemanha-Chile e para por aí. O componente chinês não aparece em lugar nenhum, embora sem ele a mina não produza. Multiplique esse exemplo por cada insumo de cada indústria e você terá uma forma de dependência que não consta dos números com que os governos discutem política comercial.
Diego Solar, do Instituto de Estudios Internacionales da Universidade do Chile, resolveu medi-la. Em artigo publicado na Estudios Internacionales — revista do próprio instituto, distribuída pela nossa parceira JSTOR —, ele constrói os primeiros índices baseados em insumo-produto de exposição geopolítica na cadeia de valor para a América Latina, cruzando as tabelas interpaíses da OCDE com os padrões de voto na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Como Se Mede Uma Dependência Invisível
A ferramenta é a contabilidade insumo-produto multirregional. Em vez de parar na fronteira da transação direta, ela rastreia o valor agregado ao longo de toda a rede de produção: aplicando a inversa de Leontief às tabelas da OCDE, obtém-se quanto do conteúdo produtivo de um país vem, direta e indiretamente, de cada país fornecedor. O componente chinês dentro do gerador alemão volta a ficar visível.
A cada país fornecedor atribui-se depois uma posição num eixo que vai de +1, alinhamento pleno com os Estados Unidos, a −1, alinhamento pleno com a China. Essa posição não é opinião: sai dos pontos ideais de política externa estimados a partir do voto na Assembleia Geral. O índice final é a média dessas posições, ponderada por quanto valor agregado cada fornecedor aporta.
A analogia que o autor usa para explicar é elegante e vale repetir: é a mesma matemática da contabilidade de carbono baseada no consumo, que mede a pegada ambiental de um país rastreando o CO₂ incorporado naquilo que ele consome. Troque o coeficiente de intensidade de emissão por um escore de alinhamento geopolítico e você tem uma pegada geopolítica.
Uma distinção importante: o índice mede a montante, ou seja, de onde vêm os insumos que tornam a produção possível. Não mede a jusante, que seria a China como compradora do cobre chileno ou da soja argentina. São canais distintos, e na América Latina os dois apontam na mesma direção — o que o próprio autor assinala como limitação, convidando pesquisas futuras a isolá-los.
O Achado: Ninguém Está Capturado
O primeiro resultado é o mais contraintuitivo. Os sete índices ficam dentro do intervalo entre −0,30 e +0,30, bem longe dos extremos teóricos de ±1. Ou seja: nenhuma das economias analisadas tem a cadeia de valor capturada por um dos dois blocos. Solar chama essa posição de conector estrutural — ancorada nos dois, sem pertencer inteiramente a nenhum.
Mas a região não é homogênea, e a divisão é nítida. O México apresenta a exposição positiva mais alta e estável, com média de +0,220, seguido pela Costa Rica, com +0,123. No outro extremo, o Chile registra a média mais negativa, −0,184, seguido pelo Peru, com −0,155, e pela Argentina, com −0,151. Brasil e Colômbia ocupam posição quase neutra.
A composição dos fornecedores explica por quê. Em 2022, México e Costa Rica tinham os Estados Unidos como principal fonte de valor agregado estrangeiro por margens amplas — 42,5 e 32,9 pontos percentuais de vantagem. Chile, Peru e Argentina tinham a China como primeira ou segunda fonte, com pesos entre 17,4% e 24,3%. E o Brasil aparece praticamente empatado: 19,4% Estados Unidos contra 18,4% China, o que explica seu índice próximo de zero.
Os rankings entre países se mantêm estáveis ao longo de toda a amostra, de 2016 a 2022.
A Parte Que o Autor Não Vende Como Certeza
A segunda metade do artigo pergunta se essa estrutura prediz comportamento político: países com cadeias inclinadas para a China votam mais como a China na ONU? É a hipótese clássica de Hirschman, atualizada por Farrell e Newman com o conceito de interdependência instrumentalizada.
Aqui convém ser preciso, porque o próprio autor é. A associação aparece, positiva e estatisticamente significativa, em duas das três especificações estimadas. Na terceira, a de efeitos fixos bidirecionais — a mais conservadora —, o coeficiente vira negativo e perde significância. O painel tem sete países e sete anos: 49 observações. Solar escreve que os resultados devem ser interpretados como evidência de associação consistente com o mecanismo teórico, e não como identificação causal.
Ele mesmo nomeia o problema de fundo: um país com cultura política orientada para um dos polos pode, ao mesmo tempo, abastecer-se de parceiros alinhados a esse polo e votar como ele. As duas variáveis se moveriam juntas sem que uma cause a outra, e o desenho de painel disponível não permite descartar isso.
Há ainda uma ressalva metodológica que merece registro. O ponto ideal estimado para a China salta de aproximadamente −0,38 em 2021 para −1,35 em 2022, refletindo sua postura bem mais assertiva nas resoluções ligadas à Ucrânia. Esse salto desloca o nível absoluto de todos os índices em 2022 sem que nenhuma cadeia de valor tenha se movido. O autor identifica isso, explica o mecanismo e roda o teste de robustez excluindo o ano.
É essa transparência que torna confiável a parte descritiva. Os índices são a contribuição do artigo; a regressão é uma pergunta em aberto, que ele deixa formulada com honestidade.
Por Que Isso Importa Para Quem Decide
A primeira implicação é que não existe uma resposta regional única à pressão do friend-shoring. Para México e Costa Rica, aprofundar a integração com o bloco norte-americano via T-MEC — o acordo entre Estados Unidos, México e Canadá — é viável sem maior ruptura estrutural, porque suas cadeias já estão ancoradas ali. Para Chile, Peru e Argentina, uma reorientação acelerada rumo a fornecedores alinhados aos Estados Unidos implicaria custos de ajuste consideravelmente maiores. Qualquer coordenação regional em matéria de diversificação esbarra no fato de que a região não é uma coisa só.
A segunda é a advertência que fecha o artigo, e é a frase que reorganiza tudo o que veio antes: a posição de conector pode ser um ativo estratégico, mas é determinada pela estrutura produtiva de cada país e não foi escolhida estrategicamente. À medida que a rivalidade se intensificar, os países da região podem enfrentar pressão crescente para fazer escolhas de bloco que sua estrutura econômica nem exige nem justifica.
O contexto dá urgência ao ponto. O artigo cita o segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, com tarifas de até 145% sobre importações chinesas, controles mais estritos sobre exportações de semicondutores avançados e pressão para renegociar antecipadamente o T-MEC. São exemplos de dependências estruturais antes latentes sendo ativadas deliberadamente como alavancas de pressão.
Os Limites, Que o Artigo Declara
A amostra é de sete países e sete anos, e não por escolha: a edição 2025 das tabelas da OCDE identifica individualmente apenas essas sete economias latino-americanas. Bolívia, Equador, Venezuela, Guatemala e Nicarágua ficam agregadas num “Resto do Mundo” — e o autor observa que justamente esses países poderiam exibir posições mais extremas e alterar o quadro regional. A janela começa em 2016 porque uma mudança de classificação industrial impede estendê-la para trás. E ao “Resto do Mundo” atribui-se escore neutro, o que empurra todos os índices na direção do zero: as estimativas apresentadas são, nesse sentido, conservadoras.
Por Que Ler Isto Por Aqui
É um artigo sobre a América Latina, escrito a partir da América Latina e publicado em espanhol, com contribuição metodológica própria. Isso não é abundante. E é diretamente aproveitável no ensino: o índice se reconstrói a partir de fontes públicas — as tabelas interpaíses da OCDE e os dados de pontos ideais derivados do voto na ONU —, o que faz dele um bom exercício de métodos quantitativos para programas de relações internacionais, economia e políticas públicas.
Para conhecer em detalhe a construção do índice, as tabelas de composição de fornecedores, os resultados da regressão e a discussão completa de implicações de política, leia o artigo original.
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