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Sinalizante em conversa. O estudo mostra que repetir um mesmo elemento no começo e no fim de um trecho não é hesitação: é o que emoldura o que está no meio, e ocupa 21% do tempo de sinalização. (imagem: Thares2020 / Adobe Stock – gerada por IA) Sinalizante em conversa. O estudo mostra que repetir um mesmo elemento no começo e no fim de um trecho não é hesitação: é o que emoldura o que está no meio, e ocupa 21% do tempo de sinalização. (imagem: Thares2020 / Adobe Stock – gerada por IA)
De Gruyter Brill: Não Há Base Empírica para Separar Gesto de Língua
  • Notícia
  • Linguística, Letras e Artes
  • 17/09/2026
  • De Gruyter Brill, Dot.Lib, Semiótica

Em uma narrativa em língua de sinais francesa da Bélgica (LSFB), uma sinalizante mostra um personagem olhando com surpresa. Em seguida, narra que o metrô parte com a mulher dentro. E então volta a mostrar exatamente a mesma coisa do começo: o personagem olhando com surpresa. O trecho do meio fica cercado por duas ocorrências idênticas, e esse fechamento lhe dá unidade: "ele vê o metrô partir, com ela dentro". Não é gagueira nem correção: é um procedimento estrutural.

Laurence Meurant, do Instituto NaLTT e do LSFB-Lab da Universidade de Namur, dedicou um artigo publicado no Open Linguistics, de nossa parceira De Gruyter Brill, a descrever esse padrão — que ela chama de repetição de enquadramento, esquematizável como A-B-A — e a perguntar o que ele revela sobre o modo como sinalizantes integram recursos de naturezas distintas para construir sentido. A resposta à segunda pergunta acabou sendo mais incômoda que a primeira.

O que Conta como Repetição de Enquadramento, e o que Não Conta

A linguística costuma distinguir a reduplicação — processo morfológico que repete uma palavra, um radical ou parte de uma base, e que exprime pluralidade, intensidade ou continuidade — da repetição propriamente dita, que se aplica a unidades maiores. Quando o que se repete é um constituinte sintático, fala-se em duplicação (doubling); quando as duas ocorrências não estão lado a lado, em duplicação não adjacente. O fenômeno está documentado tanto em línguas orais quanto em línguas de sinais.

O estudo se restringe às repetições idênticas e não adjacentes. Essa decisão metodológica deixa de fora duas construções vizinhas e bem conhecidas: o chamado "sanduíche verbal", em que a segunda ocorrência do verbo aparece morfologicamente modificada, e a cópia de tópico, em que um sinal de apontamento retoma outro tipo de sinal. Nenhuma das duas foi contada como repetição de enquadramento. Sobre o corpus conversacional e narrativo de dez sinalizantes, a autora identificou e anotou 318 casos.

Mais de Quatro por Minuto, e Um Quinto do Tempo

A primeira constatação é de frequência, e é mais contundente do que a própria autora antecipava a partir da literatura sobre línguas orais. No conjunto da amostra observaram-se, em média, mais de quatro repetições de enquadramento por minuto, e essas sequências ocupam 21% do tempo total de sinalização. Os dez sinalizantes produziram repetições de enquadramento nos dois gêneros, conversa e narrativa, sem exceção.

A variação individual é ampla, mas não quebra o padrão: as frequências individuais vão de 1,73 por minuto em conversa e 2,00 por minuto em narrativa até 5,87 por minuto em conversa e 6,56 por minuto em narrativa. Em proporção do tempo de sinalização, a faixa vai de um mínimo de 5% em conversa e 8% em narrativa a um máximo de 54% em conversa e 37% em narrativa. As repetições são um pouco mais frequentes nas narrativas, mas tendem a ser mais longas nas conversas: 7,15 sinais de extensão média contra 4,9, com mediana de 4 nos dois gêneros.

Outro dado delimita bem o fenômeno: na esmagadora maioria dos casos — 92,5% das 318 ocorrências — o elemento repetido consiste em um único sinal. Em conversa, 88% dos segmentos A incluem um só sinal, com máximo de cinco; em narrativa, 96%, com máximo de dois. O que se repete é curto; o que fica cercado pelas duas ocorrências pode ser muito extenso.

A Fronteira que Não Aparece nos Dados

Aqui o estudo deixa de descrever e passa a discutir. Cada segmento repetido foi anotado segundo os tipos de formas que contém — sinal lexical, sinal de apontamento, apontamento com o olhar, articulação bucal, sinal indicativo, sinal descritivo, ação construída, gesto recorrente — e segundo as estratégias semióticas que mobiliza: descrição, indicação e depicção.

Tomada em bloco, a descrição é a estratégia mais frequente nos segmentos A, presente em 253 dos 318 casos (80%). A depicção e a indicação aparecem em taxas semelhantes, em 183 casos (57%) e 179 casos (56%), respectivamente. Mas a casa mais povoada do diagrama não é nenhuma delas isoladamente: é a combinação das três ao mesmo tempo, com 100 casos (31%). Em seguida vem o uso da descrição sozinha, com 83 casos (26%), e as combinações de duas estratégias somam 97 casos (30%). Quanto às formas, em 75,5% dos casos várias coexistem em um mesmo segmento repetido, e apenas 24,5% mobilizam uma única forma.

Uma análise de correspondências múltiplas sobre o conjunto dos dados completa o quadro. Ao considerar todas as variáveis simultaneamente — sinalizantes, gêneros, extensões, tipos de formas e estratégias —, a amostra não exibe diferenças notáveis entre sinalizantes, entre tipos de formas nem entre extensões, e tampouco emerge distinção clara entre conversa e narrativa. A única separação nítida que a análise produz é a presença ou ausência da estratégia depictiva.

Daí decorre o argumento central do artigo. Os resultados não justificam uma distinção categórica entre as formas que os sinalizantes empregam nas repetições de enquadramento: as mais frequentes compreendem tanto estruturas de ação construída — fundamentalmente depictivas, ou seja, do tipo que a tradição chamaria de "gestual" — quanto sinais lexicais — fundamentalmente descritivos, ou seja, convencionais —, e os elementos que enquadram combinam tipicamente várias estratégias semióticas. Não há, escreve Meurant, base empírica para tratar sistematicamente os chamados elementos gestuais como distintos dos chamados elementos linguísticos, porque uns e outros realizam o mesmo padrão.

A Conversa e a Narrativa Não Se Parecem

A homogeneidade geral não significa uniformidade. Na conversa predominam as estratégias descritivas (87,2%), sobretudo por meio de sinais lexicais sozinhos ou acompanhados de articulações bucais; a combinação de sinal lexical e articulação bucal representa 30% dos casos nesse gênero. Na narrativa domina a depicção (82,5%), reflexo do uso frequente de estruturas de ação construída e de sinais descritivos para representar referentes e suas ações. Os segmentos semioticamente compostos — os que combinam duas ou mais estratégias — chegam a 47,6% na conversa contra 80,7% na narrativa.

A extensão também varia. A autora classificou as 318 ocorrências em cinco categorias, conforme o número de cláusulas e de unidades discursivas que abrangem. A mais frequente é a de menor alcance — a repetição que cobre apenas uma parte de uma cláusula —, com 95 casos (30%). No extremo oposto, 41 casos (13%) se estendem por várias unidades de discurso, enquadrando turnos inteiros na conversa ou episódios completos na narrativa. E há repetições aninhadas dentro de outras repetições, algo que o padrão admite justamente por não impor restrição de proximidade entre seus componentes.

Os efeitos produzidos pelo enquadramento também não são uniformes. Além de agrupar, a estrutura A-B-A pode enfatizar — como na pergunta feita à interlocutora "por que ela não estaria motivada?", em que o segundo POR-QUE fecha o que o primeiro abriu —, demarcar um fragmento de diálogo construído em relação à linha narrativa principal, ou produzir um efeito de laço em contextos de hesitação, quando a estrutura retorna ao ponto de partida depois do desvio.

Os Limites que a Própria Autora Aponta

O estudo é explícito quanto ao seu alcance. Ao se restringir a repetições manualmente idênticas, não captura as mudanças que possam ocorrer entre as duas ocorrências em traços não manuais — especificamente na articulação bucal e no apontamento com o olhar. A codificação das estratégias é binária, de modo que a análise não reflete o peso relativo de cada estratégia dentro de um segmento: duas fontes de indicação em um mesmo segmento contam igual a uma. E a amostra são dez sinalizantes de uma língua de sinais específica, a LSFB, em dois gêneros discursivos.

Nas conclusões, a autora propõe estender a mesma abordagem ao estudo das línguas orais: uma perspectiva semiótica que sublinhe a natureza composta da construção de sentido, independentemente dos canais ou modalidades envolvidos e sem pressupor uma distinção entre elementos linguísticos e gestuais. Fica em aberto a pergunta de se o padrão linear de enquadramento tem equivalentes em produções faladas comparáveis.

Para consultar a tipologia completa de formas e estratégias, os exemplos anotados do corpus LSFB, as cinco categorias de extensão e a análise de correspondências múltiplas, leia o artigo original no Open Linguistics.

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