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Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em espiga de milho. Nativa das Américas, a praga foi detectada na África em 2016 e se espalhou rapidamente por várias regiões da Ásia e por partes da Oceania. (imagem: ณัฐวุฒิ เงินสันเทียะ / Adobe Stock) Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em espiga de milho. Nativa das Américas, a praga foi detectada na África em 2016 e se espalhou rapidamente por várias regiões da Ásia e por partes da Oceania. (imagem: ณัฐวุฒิ เงินสันเทียะ / Adobe Stock)
CABI: Como o Desenho da Lavoura Suprime a Lagarta-do-Cartucho Sem Inseticida
  • Notícia
  • Ciências Agrárias
  • 01/09/2026
  • Agroecologia, amidodemilho, CABI, Dot.Lib, Lagarta-do-Cartucho, Microbioma do Solo, Controle Biológico

A Spodoptera frugiperda é nativa do continente americano. Aqui ela tem nome popular, histórico de manejo e lugar cativo no calendário do produtor de milho: é a lagarta-do-cartucho. Em 2016 foi detectada pela primeira vez na África, e o que se seguiu foi uma expansão rápida por várias regiões e continentes, incluindo a Ásia e partes da Oceania. O efeito foi severo justamente onde o milho é, ao mesmo tempo, alimento básico e principal fonte de renda.

Os números que a literatura registra para a África subsaariana dão a dimensão. No Quênia, levantamentos indicaram que cerca de 82% dos pequenos produtores de milho relataram infestação, com reduções de produtividade de até 30% nas áreas mais atingidas. Na Etiópia, os surtos entre 2017 e 2019 chegaram a 36% de perda, o equivalente a algo em torno de 200 milhões de dólares; mesmo depois da adoção de medidas de manejo, ainda se relatavam perdas de aproximadamente 11,5%. Sínteses que reúnem vários estudos situam as perdas entre 20% e 50%, conforme a pressão da praga, o manejo e a região.

A resposta padrão é o inseticida sintético, e a revisão que motiva este texto começa listando o que essa resposta custa: contaminação ambiental, risco à saúde humana, dano aos inimigos naturais, perda de biodiversidade, aumento da resistência da praga e peso financeiro sobre o produtor. Abdul A. Jalloh e colegas — do icipe, o Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos, em Nairóbi, com a Universidade de Pretória, a Universidade da Geórgia e a South Eastern Kenya University — publicaram no CABI Agriculture and Bioscience, periódico de nossa parceira CABI, uma revisão que organiza o que se sabe sobre a alternativa. E a alternativa não é um produto: é um arranjo de plantio.

Empurrar e Puxar

O sistema push-pull é o exemplo mais consolidado do que os autores chamam de manejo de pragas baseado em biodiversidade. A lógica está no nome. As plantas de “puxar” — em geral o capim-napier, Pennisetum purpureum — atraem e retêm a praga nas bordas da área. As plantas de “empurrar” — leguminosas do gênero Desmodium, como D. intortum e D. incanum — repelem os insetos pela liberação de semioquímicos, os compostos voláteis que funcionam como sinal entre plantas e insetos.

O ganho não para na praga. O Desmodium também suprime a Striga, erva parasita que ataca o milho, e melhora a fertilidade do solo por fixação de nitrogênio e aporte de matéria orgânica. É por isso que o sistema se sustenta economicamente: a leguminosa não é só uma barreira química, é forragem e adubo.

Os números de campo que a revisão reúne são expressivos. Em Uganda, a infestação por S. frugiperda ficou em 38% nas áreas sob push-pull, contra 95% nas monoculturas convencionais de milho. No Quênia, 27% contra 80%. A terceira geração da tecnologia, adaptada ao clima, mostrou redução significativa de dano. Considerando o conjunto dos estudos, sistemas desse tipo aumentaram a produtividade do milho entre 30% e 40% e reduziram a dependência de insumos químicos sintéticos em mais de 50%.

O Que Acontece Embaixo do Solo

Se a revisão parasse aí, seria um folheto de extensão rural. A contribuição dela é outra: sustentar que o efeito não se explica apenas pelas duas plantas que se veem. A diversificação reorganiza a comunidade microbiana do solo, e essa reorganização volta para a planta.

O mecanismo tem nome: plant-soil feedback, ou retroalimentação planta-solo. A planta altera a química e a estrutura do solo pela exsudação radicular e pela absorção de nutrientes; o solo alterado muda quem cresce ali depois. Cultivar milho com leguminosas e Desmodium aumenta o carbono do solo, reduz patógenos microbianos e melhora estrutura, ciclagem de nutrientes e atividade enzimática. Microrganismos promotores de crescimento produzem fito-hormônios — auxinas, giberelinas, citocininas — e induzem metabólitos de defesa como flavonoides e fitoalexinas. A rizobactéria Pseudomonas simiae WCS417r, por exemplo, reforça a resposta da planta contra insetos mastigadores.

Traduzindo: a planta que cresceu em solo diversificado não é a mesma planta para a lagarta. Ela emite outro perfil de voláteis, tem outro conteúdo defensivo e sustenta outro conjunto de visitantes.

O Terceiro Nível: Quem Come a Lagarta

O terceiro nível trófico é o dos inimigos naturais, e ali os números também são altos. Na África subsaariana, Chelonus icipe aparece como um dos parasitoides larvais mais frequentes de S. frugiperda, com taxas de parasitismo de 33% a 45%; a mosca taquinídea Palexorista zonata chegou a 12,5% em lavouras quenianas. Entre os demais parasitoides registrados estão Telenomus remus, Trichogramma spp. e Coccygidium luteum. Em campos não pulverizados da região, o parasitismo natural passou de 44% — número que, lido de trás para a frente, diz o que a pulverização apaga.

Predadores contam do mesmo modo. A redução de populações de formigas como Pheidole radowszkoskii e Solenopsis geminata foi associada a maior abundância de larvas e mais dano à cultura. Mas a eficácia dos inimigos naturais depende de sazonalidade, densidade da praga, disponibilidade de abrigo e alimento, características da paisagem, chuva e temperatura: o mesmo desenho de lavoura não entrega o mesmo resultado em toda parte.

As Ressalvas dos Próprios Autores

Este é um artigo de revisão, não um experimento novo: ele sintetiza a literatura de microbiologia do solo, entomologia, ecologia e agronomia, e o valor está aí. Mas os autores são explícitos sobre os limites do que se sabe.

O principal deles diz respeito aos voláteis induzidos por herbivoria. A maior parte dos estudos sobre esses compostos vem de casa de vegetação ou de laboratório, e a validação em campo ainda é limitada. Os autores escrevem que as afirmações sobre atração de inimigos naturais e supressão de pragas por essa via devem ser interpretadas com cautela em condições reais de cultivo, porque variabilidade ambiental, diversidade vegetal e complexidade da paisagem podem reduzir ou alterar o efeito. São necessários mais estudos de campo, em escala maior.

Há um segundo limite, específico. O push-pull foi desenvolvido contra brocas do colmo, e para essas a supressão é consistente e bem documentada. Para a S. frugiperda, a literatura é mais recente e os resultados são mais variáveis.

E há a barreira que nenhuma evidência resolve: a adoção. Os autores listam a falta de políticas de apoio e de incentivo financeiro, o acesso limitado a assistência técnica e a sementes de leguminosas de qualidade, e o caráter intensivo em mão de obra do sistema — capina regular, manejo de biomassa, plantio sincronizado —, agravado pelo envelhecimento da população rural e pela migração para as cidades. Some-se a isso que o retorno de curto prazo é incerto, ainda que o de longo prazo seja favorável. Entre as saídas sugeridas estão crédito de carbono, subsídio a biofertilizantes e acesso a mercados de certificação.

Por Que Isso Interessa Por Aqui

A revisão é escrita para a África subsaariana, mas a praga é nossa. A lagarta-do-cartucho está entre as principais ameaças ao milho na América Latina, e os mecanismos descritos — semioquímicos, retroalimentação planta-solo, inimigos naturais — não têm passaporte. O que não se transfere automaticamente são os números: taxas de infestação e de parasitismo dependem de clima, paisagem e sistema de produção, e precisam ser medidas localmente.

Para bibliotecas de ciências agrárias e para programas de agronomia, entomologia e microbiologia do solo, o artigo tem um valor que vai além do conteúdo: é uma síntese fartamente referenciada de um assunto que costuma aparecer picado entre três disciplinas que pouco conversam. Funciona bem como leitura de entrada em interações multitróficas.

Para conhecer o quadro conceitual completo, as tabelas de impacto por país, a discussão sobre comunidades microbianas e a agenda de pesquisa proposta pelos autores, leia o artigo original na CABI Agriculture and Bioscience.

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