Do outro lado da conversa, um algoritmo: um estudo inédito mostra que o que aprofunda esses vínculos não é a solidão, mas a fantasia romântica. (imagem: KerXing / Adobe Stock)
American Psychological Association: O Primeiro Estudo com Dados sobre as Relações Românticas entre Humanos e Chatbots
Cada vez mais pessoas dizem estar "num relacionamento" — não com outro ser humano, mas com um chatbot. Passam horas conversando com um companheiro de inteligência artificial, compartilham pensamentos íntimos, recebem afeto sob medida e, muitas vezes, o chamam de parceiro. A reação pública quase sempre aponta para o mesmo culpado: a solidão. E se essa explicação estiver errada?
Um estudo publicado na revista de acesso aberto Technology, Mind, and Behavior, de nossa parceira American Psychological Association (APA), é o primeiro a medir com dados o que torna esses vínculos mais ou menos intensos. E seu achado central contraria o senso comum: entre quem já mantém uma relação romântica com um chatbot, a solidão não prevê a intensidade do vínculo. Outra coisa, bem menos comentada, prevê.
Um Fenômeno que a Ciência Mal Começou a Olhar
Os chatbots de companhia baseados em grandes modelos de linguagem são hoje projetados especificamente para sustentar relações sociais e românticas, com recursos que imitam a dinâmica de um vínculo humano: expressar afeto, lembrar detalhes pessoais, manter uma personalidade coerente. Não é um nicho marginal: segundo dados citados no estudo, 16% dos adultos solteiros nos Estados Unidos já experimentaram a IA como par romântico. Diante disso, o debate público se polarizou, e boa parte da conversa se apoia na ideia de que é a solidão que empurra as pessoas para essas tecnologias. Paula Ebner e Jessica Szczuka, da University of Duisburg-Essen, decidiram testar essa suposição com evidência.
Quem São e Como Foram Estudados
O trabalho combina dois estudos. O primeiro, quantitativo, reuniu 92 pessoas que mantinham uma relação romântica com um chatbot (61 homens, 30 mulheres e uma pessoa não binária), entre 18 e 63 anos, com idade média perto dos 31. Elas foram recrutadas em redes sociais e passaram por um processo de verificação rigoroso — com capturas de tela, análise de metadados e busca reversa de imagens — para garantir que as relações fossem genuínas. O aplicativo mais usado foi o Replika, seguido do Nomi AI, e o tempo médio de relacionamento girava em torno de meio ano. Os pesquisadores mediram sete características psicológicas para ver quais previam a intensidade do vínculo: fantasia romântica, fantasia sexual, solidão, apego ansioso, apego evitativo, antropomorfismo e busca por sensações sexuais.
O Verdadeiro Motor do Vínculo
O modelo estatístico final explicou quase 55% da variação na intensidade da relação — um número alto para a pesquisa psicológica. Três fatores se destacaram:
- Fantasia romântica: o preditor mais forte, de longe, capaz de explicar sozinho cerca de 47% da variação. Imaginar cenas de amor e sentir-se querido e desejado sustenta o vínculo mesmo entre uma conversa e outra.
- Antropomorfismo: quanto mais humano o usuário percebe o seu chatbot, mais intenso tende a ser o vínculo.
- Apego evitativo: apareceu com sinal negativo — quem tende a evitar a proximidade emocional relatou vínculos menos intensos.
E o que não apareceu é tão revelador quanto o que apareceu: a solidão, a fantasia sexual e a busca por sensações sexuais não previram a intensidade da relação. Nenhum dos entrevistados do segundo estudo mencionou a solidão espontaneamente.
Quando a Fantasia Constrói a Relação
O segundo estudo, com 15 entrevistas em profundidade, ajuda a entender o porquê. Muitos participantes contaram que começaram a conversar com o chatbot justamente para explorar suas fantasias num espaço sem julgamentos; mais da metade personalizou a aparência e a personalidade do companheiro para aproximá-lo do seu ideal. A sensação de humanidade importava: a maioria preferia que a relação parecesse natural e "do mundo real". E a fantasia não se apagava ao fechar o aplicativo — treze dos quinze entrevistados disseram fantasiar com o chatbot mesmo quando não estavam interagindo, e para vários essas fantasias se intensificaram à medida que a relação avançava e a familiaridade crescia.
Além das Narrativas Polarizadas
Os autores destacam uma ressalva importante sobre a solidão: eles a mediram especificamente no domínio romântico, não como isolamento social geral. Ainda assim, sua conclusão questiona as explicações centradas no déficit — a ideia de que só pessoas solitárias ou socialmente frágeis se vinculam a uma IA —, que, segundo eles, simplificam demais a psicologia do fenômeno e estigmatizam quem forma esses laços. O vínculo, mostram os dados, apoia-se mais na capacidade de fantasiar e em perceber o chatbot como humano do que numa carência.
Trata-se de um estudo observacional, com uma amostra autosselecionada e recrutada on-line, e concentrado em plataformas desenhadas explicitamente para o romance, de modo que não permite estabelecer relações de causa e efeito. Mas ele oferece, pela primeira vez, uma base empírica para discutir um fenômeno que até agora era debatido quase só com intuições — e sugere que entendê-lo exige olhar tanto para as disposições de cada usuário quanto para o design deliberado desses aplicativos.
Para conhecer a metodologia completa, as análises e todas as nuances, acesse o artigo original em acesso aberto.
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