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O cuidado no lar: a literacia em saúde traz a confiança necessária para que os familiares apoiem a independência de seus entes queridos dentro de casa. (imagem: Yuganov Konstantin / Canva) O cuidado no lar: a literacia em saúde traz a confiança necessária para que os familiares apoiem a independência de seus entes queridos dentro de casa. (imagem: Yuganov Konstantin / Canva)
De Gruyter Brill: Cuidar de um Familiar Dependente Exige Mais do que Boa Vontade
  • Notícia
  • Ciências da Saúde, Ciências Humanas
  • 21/07/2026
  • De Gruyter Brill, Dot.Lib, Cuidadores Familiares, Literacia em Saúde, Autoeficácia, Enfermagem Familiar

Há milhões de pessoas no mundo que cuidam de um familiar dependente sem terem escolhido esse papel conscientemente. Uma manhã, tornaram-se cuidadores devido a uma queda, um diagnóstico ou o avanço silencioso de uma doença crônica. Não receberam formação prévia, tempo para se preparar, nem um manual de instruções; apenas a responsabilidade.

O que essas pessoas sabem ou não sabem sobre saúde importa mais do que costuma ser reconhecido. Sua capacidade de entender uma receita médica, interpretar um sinal de alerta, saber quando consultar um médico ou como estimular a autonomia do familiar de quem cuidam depende diretamente de seu nível de literacia em saúde. E, segundo um novo estudo publicado no periódico Open Medicine, de nossa parceira De Gruyter Brill, essa literacia também influencia algo tão fundamental quanto a autoeficácia, ou seja, a confiança que o cuidador tem em si mesmo para realizar bem o seu trabalho.

O Que é Literacia em Saúde e Por Que Ela Importa no Cuidado Familiar

A literacia em saúde (LS) vai muito além de saber ler. Ela abrange a capacidade de acessar, compreender, avaliar e aplicar informações relevantes relacionadas à saúde. Uma pessoa com boa literacia em saúde pode tomar decisões mais informadas, gerenciar melhor as doenças crônicas e navegar com maior eficácia pelo sistema de saúde.

No contexto do cuidado familiar, essa capacidade torna-se especialmente crítica. O cuidador familiar não deve atender apenas às suas próprias necessidades, mas também às de um familiar dependente, executando tarefas como:

  • Gerenciar medicamentos e interpretar sintomas.
  • Aplicar técnicas de higiene e promover o uso de roupas adequadas.
  • Estimular a independência residual do familiar.
  • Auxiliar o familiar em atividades de autovigilância.

111 Cuidadores, uma Unidade de Saúde Familiar em Portugal

O estudo foi realizado por pesquisadoras da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal), com a colaboração da Universidade Federal da Bahia (Brasil).

  • Participaram 111 cuidadores familiares, usuários de uma Unidade de Saúde Familiar no interior norte de Portugal, entrevistados por telefone entre janeiro e fevereiro de 2024.

  • Para medir a literacia em saúde, utilizou-se a escala HLS-EU-PT-Q16, validada para a população portuguesa, que avalia a percepção de dificuldade em três domínios: cuidados de saúde, prevenção de doenças e promoção da saúde.

  • A autoeficácia do cuidador foi avaliada por meio de nove comportamentos específicos de adesão ao papel, desenvolvidos a partir do Modelo Dinâmico de Avaliação e Intervenção Familiar.

Literacia Problemática e Confiança Variável

O primeiro achado chama a atenção: quase metade dos cuidadores (47,7%) apresentou um nível "problemático" de literacia em saúde geral. Se somado ao nível "inadequado", cerca de três quartos da amostra possuía o que os pesquisadores chamam de literacia limitada.

O perfil mais comum do cuidador nesta amostra coincide com o que a literatura internacional já documentou amplamente: mulheres (82,9%) de meia-idade (entre 45 e 64 anos), casadas, que cuidam do pai ou da mãe e que estão inativas profissionalmente.

Mais Literacia, Mais Confiança em Três Tarefas Importantes

O principal achado do estudo é a existência de uma relação estatisticamente significativa entre o nível de literacia em saúde geral e a autoeficácia percebida em três comportamentos concretos de adesão ao papel de cuidador:

  • Incentivar a independência do familiar dependente (p = 0,033).
  • Promover o uso de roupas adequadas para o familiar (p = 0,001).
  • Auxiliar o familiar na sua autovigilância (p = 0,000).

Essas três tarefas têm em comum a exigência de compreensão do estado do familiar, capacidade de julgamento e habilidade de comunicação. Nesse sentido, cuidadores com um maior nível de literacia em saúde demonstraram ter uma maior autoeficácia (confiança e competência) para executar esses comportamentos.

Implicações para a Prática de Enfermagem

Os autores destacam que esses resultados têm implicações diretas para os profissionais, especialmente no contexto da enfermagem de saúde familiar. Identificar o nível de literacia permite o planejamento de intervenções mais adequadas; não basta fornecer informações, é preciso garantir que elas sejam compreensíveis, aplicáveis e que fortaleçam o senso de competência do cuidador.

Cuidadores com baixa autoeficácia apresentam maior risco de sobrecarga, esgotamento e sofrimento psicológico. Intervir a tempo com programas de capacitação adaptados pode não apenas melhorar a qualidade de vida do familiar dependente, mas também a do próprio cuidador.

Para ler a metodologia completa e os detalhes do estudo, acesse o artigo original.

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