O milho é o coração da milpa — o sistema tradicional em que cultivar, alimentar e cuidar da saúde não se separam. (imagem: DianaMarina / Adobe Stock)
CABI: Agricultura e Medicina Tradicionais Como Um Só Sistema
Para muitas comunidades indígenas e rurais da Mesoamérica — a região cultural que vai do centro-sul do México ao noroeste da Costa Rica —, agricultura e saúde nunca foram assuntos separados. Plantar, alimentar, curar e cuidar do território fazem parte de um mesmo sistema de relações com o ambiente, transmitido de geração em geração. Uma revisão publicada em acesso aberto na CABI One Health, de nossa parceira CABI, assinada por pesquisadores do CENIBiot, na Costa Rica, propôs-se a examinar esse saber ancestral sob uma lente contemporânea: o enfoque One Health, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a animal e a ambiental.
Não é uma ideia importada. Os autores destacam que a noção de que a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas está entrelaçada não nasceu num único momento nem numa única disciplina: os sistemas de conhecimento indígenas já a incorporavam muito antes de o One Health se formalizar como marco científico.
A Milpa, Um Sistema e Não Só Uma Lavoura
O exemplo mais citado é a milpa: um policultivo que combina milho (Zea mays), feijão (Phaseolus spp.) e abóbora (Cucurbita spp.), muitas vezes com outras espécies. A evidência arqueológica do cultivo de milho na região recua milênios, até o Pré-clássico, por volta de 2000 a.C., e o uso do cacau está documentado há cerca de três mil anos. Mais que um método de produção, a milpa é discutida como um sistema agroecológico que integra diversidade de culturas, conhecimento local e manejo adaptado a cada ambiente. Sua contribuição à segurança alimentar, ponderam os autores, depende de condições ecológicas, econômicas e sociais concretas: a tradição não garante o resultado por si só.
Plantas que Alimentam e Plantas que Curam
A medicina tradicional mesoamericana emprega numerosas espécies — folhas, frutos, flores, cascas e raízes — em infusões, decocções, compressas e pomadas, para queixas gastrointestinais, respiratórias, dermatológicas e crônicas como a diabetes. Esse conhecimento se estende aos animais: o saber etnoveterinário documenta tratamentos para gado, aves e espécies de quintal. A revisão mostra como, nos sistemas em que convivem lavouras e animais de quintal, a saúde humana, a animal e a ambiental ficam efetivamente conectadas.
O que o Uso Documenta, e o que Não Prova
Aqui a revisão é especialmente rigorosa, e essa é sua parte mais valiosa. Documentar que uma planta é usada — mesmo por séculos e com amplo consenso — não equivale a demonstrar que ela é eficaz ou segura. Os autores classificam a evidência por tipo: uso tradicional, dados fitoquímicos, estudos in vitro, em animais, observacionais em humanos e ensaios clínicos controlados. E advertem nas duas direções: a ausência de evidência clínica não invalida o valor cultural ou experiencial de uma prática, mas limita o que se pode afirmar sobre sua eficácia biomédica; e, no sentido inverso, uma atividade farmacológica encontrada no laboratório não prova que uma preparação seja clinicamente eficaz ou segura nas doses e vias de uso comunitário. O uso de remédios vegetais durante a pandemia de COVID-19 é ilustrativo: foi documentado, mas isso não constitui evidência de eficácia contra o SARS-CoV-2.
Diálogo, Não Validação
A proposta dos autores não é que a ciência “valide” o saber ancestral, nem que um sistema absorva o outro. Eles propõem um marco de coprodução de conhecimento: participação comunitária, autoridade e soberania do conhecimento indígena, consentimento e retorno dos resultados. As abordagens biomédicas, ecológicas e agronômicas podem avaliar afirmações empíricas concretas; as dimensões culturais, relacionais e históricas do saber ancestral pedem reconhecimento em seus próprios termos. O próprio marco, ressalvam, ainda precisa de avaliação empírica e participativa antes que se possa afirmar sua efetividade ou sua transferibilidade.
Trata-se de uma revisão narrativa em acesso aberto; o texto completo, com o marco proposto e as referências, está disponível na CABI One Health.
Sobre a CABI
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