Educação e maternidade adiada surgem como fatores de proteção contra a menopausa precoce. (imagem: VetalStock / Adobe Stock)
BMJ Group: O Peso Oculto da Menopausa Precoce na Saúde Pública Global
Por muito tempo, a menopausa foi entendida como um marco estritamente reprodutivo, um ponto final mais ou menos previsível na vida de uma mulher. Mas, quando chega antes da hora, ela deixa de ser apenas isso. Antecipar-se aos 45 anos, ou mesmo aos 40, está associado a um risco mais alto de doença cardiovascular, osteoporose, distúrbios metabólicos, declínio cognitivo, depressão e morte prematura. E, ainda assim, até agora sabíamos surpreendentemente pouco sobre o quanto o fenômeno está disseminado fora dos países de alta renda.
Um novo estudo de acesso aberto publicado no BMJ Global Health, de nossa parceira BMJ Group, muda essa perspectiva. Ao reunir dados de 44 países de baixa e média renda, ele oferece pela primeira vez um retrato comparável e detalhado de quem atravessa a menopausa mais cedo e por quê.
Um Fenômeno Mais Comum do Que Se Imaginava
Os pesquisadores trabalharam com dados da Pesquisa Demográfica e de Saúde (DHS), abrangendo 716.648 mulheres entre 30 e 49 anos em 44 países onde a menopausa tende a ocorrer mais cedo do que nas nações de alta renda. Foram incluídas todas as regiões do mundo, com exceção da América do Norte e do Sul, para as quais não havia dados disponíveis. A maioria das participantes vivia em áreas rurais (62%), mais de um terço havia se casado antes dos 18 anos (38%) e 58% tinham três ou mais filhos.
O resultado central impressiona pela magnitude: a prevalência de menopausa prematura ou precoce chegou a pouco mais de 7% (51.000 de 716.648 mulheres), muito acima de estimativas globais anteriores, com pico de 14% entre as mulheres de 40 a 44 anos. Por trás dessa média, além disso, esconde-se uma enorme desigualdade: entre os países de maior e menor prevalência houve uma diferença de seis vezes, do patamar de 12% na Etiópia a pouco mais de 2% na Jordânia.
Quem Está Em Maior Risco
Ao desagregar os dados, certos perfis concentraram claramente a maior prevalência:
- Maternidade e casamento precoces: 11% entre as que tiveram o primeiro filho antes dos 18 anos e pouco mais de 10% entre as que se casaram antes dessa idade.
- Ausência de educação formal: pouco mais de 9%.
- Desvantagem material e isolamento: pouco mais de 8% tanto em situação de pobreza quanto sem exposição à mídia.
- Residência rural e famílias numerosas: 8% em áreas rurais e 7,5% entre mulheres com três ou mais filhos.
A Educação Como Fator de Proteção
Se alguns fatores antecipam a menopausa, outros claramente a retardam, e o mais potente é a educação. Comparadas a mulheres sem educação formal, aquelas com ensino superior tiveram 58% menos probabilidade de vivenciar menopausa precoce ou prematura, com um efeito progressivamente maior conforme aumentava o nível de escolaridade. Estar empregada também protegia: as mulheres com trabalho apresentaram 14% menos probabilidade do que as que não trabalhavam.
A diferença entre o campo e a cidade foi o achado mais consistente de todos, presente em cada país e região analisados. Para os autores, ela reflete desigualdades de fundo no acesso à saúde, no estado nutricional, nas oportunidades educacionais e nas exposições ocupacionais, incluindo o contato com produtos químicos agrícolas.
Um Sinal de Alerta Para os Sistemas de Saúde
Trata-se de um estudo observacional, de modo que não permite estabelecer relações de causa e efeito; além disso, baseou-se em dados autorrelatados e não conseguiu distinguir entre menopausa natural e cirúrgica. Mesmo com essas ressalvas, sua mensagem para a saúde pública é difícil de ignorar. Com populações que envelhecem rapidamente e mulheres que passarão uma parcela crescente da vida no estado pós-menopáusico, a carga sobre sistemas de saúde já pressionados só tende a aumentar, sobretudo no sul e leste da Ásia, no Pacífico e na África subsaariana.
A conclusão dos autores é clara: é urgente integrar a menopausa aos programas de saúde reprodutiva e de doenças não transmissíveis, com atenção especial às áreas rurais e a determinantes sociais como a educação das meninas e o adiamento do casamento.
Para explorar a metodologia, os dados por país e as discussões completas, leia o artigo original de acesso aberto no BMJ Global Health.
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