Onde o sol é implacável, o calor cobra seu preço: sob alta radiação, o painel gera mais — mas também se aquece, e o resfriamento passivo com parafina ajuda a não desperdiçar essa energia. (imagem: Stockpia / Adobe Stock)
Scientific.Net: Como Distribuir o Calor em Sistemas Fotovoltaicos Térmicos
Todo painel fotovoltaico enfrenta o mesmo paradoxo: quanto mais sol recebe, mais eletricidade poderia gerar, mas também mais se aquece — e o calor reduz a eficiência de conversão e encurta a vida útil do módulo. Uma das saídas mais elegantes para esse problema não usa bombas nem ventiladores: consiste em colocar sob o painel um material de mudança de fase que absorve o excesso de calor ao derreter e o libera lentamente quando a radiação diminui. A pergunta que permanecia em aberto era menos óbvia: a forma do recipiente que contém esse material faz diferença?
Um grupo de engenheiros de universidades da Indonésia e da Malásia decidiu responder a essa questão por simulação numérica, segundo um novo estudo publicado no periódico Engineering Innovations, de nossa parceira Scientific.Net. A resposta é que faz, e bastante: com a mesma parafina e a mesma radiação incidente, três geometrias distintas de recipiente produziram temperaturas e eficiências claramente diferentes.
Três Recipientes, Um Mesmo Material
O trabalho modelou um sistema fotovoltaico térmico composto por duas camadas principais: a célula fotovoltaica em cima e o recipiente com material de mudança de fase embaixo. O material escolhido foi a parafina, por seu ponto de fusão adequado, sua estabilidade térmica e sua ampla aplicação nesse tipo de sistema; no modelo, seu calor latente de fusão é de 240800 joules por quilograma, com temperatura de solidus de 313,6 kelvin e de liquidus de 317,7 kelvin. Os recipientes, de alumínio, têm dimensões totais de 660 por 550 por 42 milímetros.
As três configurações se diferenciam pela estrutura interna: o Modelo 1 não tem divisórias; o Modelo 2 incorpora divisórias horizontais; e o Modelo 3 emprega barreiras internas segmentadas. A geometria foi construída no SolidWorks, e a simulação de fusão e solidificação foi feita no ANSYS Fluent, versões 18.2 e 22, em regime transiente. Os autores adotaram malha de 12 milímetros após verificar a independência de malha: ao refiná-la de 12 para 8 milímetros, as variações em temperatura máxima e eficiência ficaram abaixo de 0,2% nos três modelos.
Quatro Intensidades, Uma Tendência Constante
O sistema foi submetido a fluxos de calor de 300, 600, 900 e 1200 watts por metro quadrado, para representar diferentes condições de radiação solar. Em todas elas o Modelo 1 manteve a célula mais fria. A 300 watts por metro quadrado, o Modelo 2 registrou a temperatura mais alta, 27 graus Celsius, enquanto o Modelo 1 ficou em 26,2 graus. A 600 watts a tendência se repetiu, com 27,3 graus no Modelo 2 e 26,4 graus no Modelo 1. A 900 watts a distância ficou mais visível: o Modelo 2 chegou a 28 graus e os outros dois se mantiveram entre 27 e 27,3 graus. E na condição mais exigente, 1200 watts por metro quadrado, o Modelo 2 alcançou 28,5 graus, contra 27,4 graus do Modelo 1 e 27,5 graus do Modelo 3.
As imagens de distribuição de temperatura ajudam a entender o porquê. No Modelo 1 o calor se distribui de forma relativamente homogênea, com poucos pontos quentes localizados, o que acelera a homogeneização térmica e otimiza o armazenamento de energia latente durante a mudança de fase. No Modelo 2, por outro lado, as divisórias horizontais dificultam a transferência lateral de calor e geram acúmulo em determinadas zonas. No Modelo 3 a distribuição é mais fragmentada, com pontos quentes espalhados em pequenas áreas: o fluxo de calor é inibido e surge maior isolamento térmico local.
A Eficiência Segue a Mesma Curva
A eficiência da célula fotovoltaica cresceu com a intensidade da radiação nos três modelos, mas com uma hierarquia estável. A 300 watts por metro quadrado, o Modelo 1 registrou 5,3%, seguido do Modelo 3 com 5,1% e do Modelo 2 com 5,0%. A 600 watts, os valores foram 7,3%, 6,8% e 6,5%, respectivamente. A 900 watts, o Modelo 1 chegou a 9,5%, o Modelo 3 a 9,1% e o Modelo 2 a 8,8%. Na intensidade máxima, a diferença se ampliou:
- Modelo 1, sem divisórias: 11,7%
- Modelo 3, com barreiras segmentadas: 11,2%
- Modelo 2, com divisórias horizontais: 10,5%
Os autores atribuem a vantagem do Modelo 1 à capacidade do material de mudança de fase de absorver o excesso de calor sem picos de temperatura e liberá-lo de maneira gradual quando a intensidade diminui. A ausência de divisórias permite distribuição mais uniforme do calor, reduz os gradientes internos de temperatura e freia a degradação de eficiência associada ao acúmulo local de calor.
O Que o Modelo Sugere Para o Projeto de Coletores
A conclusão do estudo é direta: o Modelo 1 é recomendado como configuração ótima para sistemas fotovoltaicos térmicos com material de mudança de fase, porque combina estabilidade térmica, distribuição homogênea do calor e eficiência energética. Os autores observam ainda que as estruturas com divisórias não são inúteis em si mesmas: ao retardar a fusão do material, podem ser úteis em aplicações que exijam liberação térmica controlada ou estabilidade térmica prolongada. Mas, para o objetivo específico de manter a célula fotovoltaica fria e produtiva, o projeto mais simples foi o mais eficaz.
Para conhecer a metodologia completa e todos os achados, acesse o artigo original.
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