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Nova pesquisa questiona os benefícios universais da musicoterapia em modelos de epilepsia. (imagem: Artfully79 / iStock) Nova pesquisa questiona os benefícios universais da musicoterapia em modelos de epilepsia. (imagem: Artfully79 / iStock)
Karger: Música e Epilepsia Sob Escrutínio Experimental
  • Notícia
  • Ciências da Saúde
  • 10/02/2026
  • Dot.Lib, epilepsia, Karger, Neurociência, Musicoterapia, GABA, Efeito Mozart

A relação entre música e cérebro tem despertado o interesse da comunidade científica há décadas. Desde o conhecido “efeito Mozart” que sugere melhorias cognitivas após a escuta da Sonata K.448 até o uso da musicoterapia em contextos clínicos, consolidou-se a percepção de que a música pode modular positivamente a atividade cerebral, inclusive contribuindo para a redução de crises epilépticas. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo convivam com epilepsia, e alguns estudos relatam diminuição na frequência de crises e descargas ictais após exposição musical.

No entanto, um estudo recente publicado no periódico Medical Principles and Practice, do portfólio de nossa editora Karger, desafia essas expectativas ao apresentar evidências experimentais rigorosas que questionam a generalização desses supostos efeitos protetores.

Isolando o Efeito da Música

A equipe de pesquisa, liderada pela Dra. Hilal Adil, da Universidade de Uşak (Turquia), utilizou um modelo experimental de epilepsia induzida por pentilenotetrazol (PTZ) antagonista do receptor GABA-A que provoca convulsões ao reduzir o tônus inibitório neuronal. Esse modelo é amplamente empregado para avaliar a suscetibilidade epiléptica e os mecanismos relacionados à neurotransmissão GABAérgica.

Treze ratos Wistar albinos machos foram expostos, durante 10 semanas (a partir do 14º dia pós-natal), a duas condições auditivas distintas: a Sonata K.448 de Mozart (grupo música, 12 horas diárias, a 65–75 dB) ou ruído branco contínuo (grupo controle, 65 dB). O período de exposição foi estrategicamente escolhido durante a fase inicial do desenvolvimento auditivo, etapa em que estudos anteriores indicam maior plasticidade neural.

Para avaliar a atividade GABAérgica, os pesquisadores empregaram o paradigma de Inibição por Pré-Pulso (PPI), uma medida de filtragem sensório-motora que reflete a função inibitória cerebral. O diazepam, modulador positivo do receptor GABA-A, é conhecido por aumentar o percentual de PPI, o que valida o método como ferramenta sensível para detectar alterações na neurotransmissão GABAérgica.

A Hipótese Não se Confirma

Contrariando as expectativas iniciais, a análise revelou resultados relevantes:

  • Ausência de modulação GABAérgica detectável: não foram observadas diferenças estatisticamente significativas no percentual de PPI entre os grupos em nenhuma das intensidades de pré-pulso avaliadas (74 dB: p = 0,542; 78 dB: p = 0,889; 86 dB: p = 0,863), sugerindo que a exposição à Sonata K.448 não melhorou a neurotransmissão GABAérgica nesse modelo experimental.

  • Tendência a maior suscetibilidade às crises: embora sem significância estatística devido ao tamanho amostral limitado, o grupo exposto à música apresentou latência de crise consideravelmente menor (80 s versus 903,5 s; p = 0,098) e maior severidade das convulsões (p = 0,164), indicando possível aumento da excitabilidade neural nessas condições.

Esses achados contrastam de forma marcante com meta-análises anteriores que relataram efeitos benéficos da música na epilepsia, especialmente em estudos clínicos com exposições prolongadas.

O Valor Científico dos Resultados Negativos

Os autores destacam que esses resultados, longe de representarem um insucesso experimental, desempenham um papel essencial no avanço do conhecimento científico. A publicação de estudos com resultados negativos contribui para:

  • Prevenir vieses de publicação que distorcem a literatura científica
  • Refinar hipóteses existentes sobre os mecanismos neuromoduladores da música
  • Direcionar futuras pesquisas para desenhos experimentais mais específicos
  • Evitar extrapolações clínicas prematuras que possam impactar decisões terapêuticas

O estudo propõe explicações mecanísticas alternativas: a música pode modular sistemas dopaminérgicos ou glutamatérgicos, em vez de GABAérgicos, ou seus efeitos podem depender criticamente do tipo de epilepsia, da região cerebral afetada e das características específicas do estímulo auditivo. A epilepsia musicogênica, na qual peças musicais específicas, como “La Marseillaise”, podem desencadear crises ilustra que a música, sob determinadas circunstâncias, também pode aumentar a excitabilidade neural.

Além disso, o estudo aborda a chamada paradoxa GABAérgica na epilepsia: embora a deficiência de GABA seja tradicionalmente considerada pró-convulsiva, há evidências consistentes de que agonistas GABAérgicos podem, em certos contextos, agravar crises ou deslocar a dinâmica das redes neurais em direção à hiperexcitabilidade. A ausência de efeito GABAérgico detectável após 10 semanas de estimulação auditiva contínua pode refletir adaptação de receptores ou desenvolvimento de tolerância, fenômeno semelhante ao observado em terapias farmacológicas GABAérgicas crônicas.

Implicações para a Neurociência Translacional

Esse trabalho reforça princípios metodológicos fundamentais para a pesquisa em neurociência:

  • A importância de modelos experimentais controlados que isolem variáveis específicas
  • A necessidade de validação rigorosa de terapias complementares antes de sua adoção clínica
  • O reconhecimento de que os efeitos neurobiológicos são altamente dependentes do contexto
  • A distinção entre observações clínicas preliminares e evidência experimental reproduzível

Para pesquisadores e profissionais da saúde, os achados recomendam cautela na generalização de benefícios universais da musicoterapia na epilepsia e ressaltam a necessidade de estudos futuros que explorem diferentes paradigmas musicais, modelos específicos de epilepsia, métodos eletrofisiológicos complementares e coortes mais amplas.

Para conhecer o desenho experimental completo, as análisis estatísticas detalhadas e a discussão aprofundada sobre a complexa interação entre música, cérebro e epilepsia, acesse o artigo completo.

Sobre a Karger

A Karger é uma editora médica e científica fundada em 1890, com sede na Basileia, na Suíça. Reconhecida internacionalmente por seu compromisso com a excelência acadêmica, a Karger publica mais de 100 revistas científicas revisadas por pares em áreas como neurologia, cardiologia, oncologia, dermatologia e medicina interna. Seus conteúdos apoiam pesquisadores, profissionais da saúde e formuladores de políticas públicas na produção de conhecimento baseado em evidência rigorosa e clinicamente relevante.

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