Revisão sistemática aponta que a reabilitação tradicional precisa evoluir e que exercícios cognitivos devem fazer parte da fisioterapia esportiva. (imagem: rh2010 / Adobe Stock)
JOSPT: O Que a Neurociência Revela Sobre as Luxações de Ombro
Quando um ombro se desloca repetidamente, o problema não se limita aos tecidos articulares: o cérebro também muda. Essa é a conclusão central de uma revisão sistemática publicada no JOSPT Open, periódico da nossa parceira JOSPT (Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy), que sintetiza as evidências disponíveis sobre as alterações cerebrais associadas à instabilidade recorrente do ombro (IRO).
A pesquisa, liderada por Camille Tooth e colaboradores do Luxembourg Institute of Research in Orthopedics, Sports Medicine and Science (LIROMS), analisou sete estudos que reuniram dados de 100 pacientes com IRO e 70 controles saudáveis. Os seus achados têm implicações diretas na forma como os profissionais de saúde abordam a reabilitação dessa condição.
Um Problema Mais Comum do Que Parece
A instabilidade glenoumeral afeta aproximadamente 2% da população em geral. Embora os tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos costumem produzir bons resultados, em até 13% dos pacientes a instabilidade persiste e torna-se recorrente, com especial frequência em pessoas jovens e mulheres.
No contexto esportivo, os números são ainda mais impressionantes:
- A taxa de instabilidade do ombro atinge 35,6 por cada 100.000 exposições na luta livre e 35,4 no futebol.
- No rugby, as luxações de ombro representam 14% de todas as lesões sofridas e têm a maior taxa de recorrência.
Além do impacto físico — como dor crônica, fraqueza muscular e perda de amplitude de movimento —, as pessoas que sofrem com essa condição frequentemente experimentam ansiedade, depressão e uma redução significativa na qualidade de vida devido ao medo constante de uma nova lesão .
O Que o Cérebro Revela
Os pesquisadores encontraram um padrão consistente ao longo dos estudos analisados: os pacientes com IRO apresentam diferenças funcionais claras no cérebro, mas não diferenças estruturais significativas.
- Conectividade Funcional: Ao analisar a atividade cerebral por meio de ressonância magnética funcional (fMRI), os estudos identificaram um aumento na conectividade funcional em várias regiões-chave, como o córtex sensoriomotor primário, o córtex pré-frontal dorsolateral e a ínsula anterior.
- Compensação Neural: Essas áreas estão envolvidas no planejamento do movimento, na integração sensorial, na regulação emocional e nas funções executivas. Isso sugere que o cérebro mobiliza mais recursos para mitigar as deficiências e manter a função do ombro.
- Estrutura Preservada: Em contrapartida, as análises de morfometria baseada em voxel (VBM), que avaliam as propriedades físicas e anatômicas do cérebro, não mostraram diferenças significativas na maioria dos estudos . A exceção foi um achado pontual que sugere alterações sutis na microestrutura da substância branca na área da cápsula interna esquerda e no tálamo.
O Cérebro Trabalha Mais, Mas de Forma Menos Eficiente
Um dos achados mais relevantes do estudo tem a ver com como o cérebro se ativa dependendo do tipo de tarefa realizada:
- Movimentos Ativos: Durante os movimentos ativos do ombro, os pacientes com IRO mostraram maior ativação nas áreas motoras (como córtex motor primário, giro pré-central e giro frontal inferior) em comparação com pessoas saudáveis. Isso sugere um funcionamento motor menos eficiente, exigindo mais recursos neurais para planejar e executar movimentos. Pessoas saudáveis, por outro lado, recrutam mais regiões associadas à memória e ao processamento espacial.
- Tarefas de Apreensão: Quando a tarefa envolvia a visualização de vídeos que geravam medo de luxação, as diferenças se acentuavam, com maior ativação no hipocampo, amígdala e regiões ligadas ao processamento visual em pacientes com IRO.
- Movimentos Passivos: Curiosamente, durante movimentos passivos do ombro (sem carga cognitiva ou emocional), as diferenças entre pacientes e controles praticamente desapareceram. Isso confirma que as alterações cerebrais na IRO são mais evidentes quando há engajamento cognitivo ou emocional.
O Cérebro Como Espelho Clínico
Quatro dos estudos analisados encontraram correlações significativas entre as medidas de conectividade cerebral e os resultados clínicos. Em outras palavras, o estado do cérebro reflete a forma como o paciente vivencia os sintomas da instabilidade do ombro.
Um estudo longitudinal particularmente relevante avaliou pacientes antes e um ano após a cirurgia de estabilização. Ele revelou que a ativação cerebral pré-operatória no córtex occipital e no polo frontal poderia servir como um indicador do sucesso pós-operatório, o que abre a possibilidade de utilizar dados de neuroimagem para guiar estratégias de reabilitação.
Implicações para a Reabilitação
Os autores apontam que esses achados têm consequências diretas para a prática clínica. A evidência indica que as estratégias de reabilitação que incorporam tarefas cognitivamente exigentes, estímulos sensoriais variados e engajamento ativo podem ser mais eficazes para modular as mudanças neuroplásticas associadas à IRO.
Essas abordagens são consistentes com os princípios contemporâneos de aprendizado motor e com as recomendações do Consenso de Berna de 2022, que enfatiza a necessidade de integrar a neuroplasticidade na reabilitação do ombro.
Recomendamos a leitura da revisão completa para pleno entendimento da metodologia empregada na pesquisa.
Sobre o Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT)
O Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT) é um dos periódicos líderes mundiais em fisioterapia ortopédica e esportiva. Publicada pelo grupo Movement Science Media, a publicação traz pesquisas clínicas e diretrizes práticas para garantir que a reabilitação musculoesquelética seja baseada nas melhores evidências científicas.
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