Pesquisa desafia décadas de suposições sobre a saúde mental e as reais motivações por trás da migração internacional. (imagem: ozgurdonmaz / Getty Images)
Duke University Press: A Solidão Pode Ser Um dos Motivos para a Migração Internacional?
Por que algumas pessoas decidem abandonar seu país de origem? As respostas habituais apontam para fatores econômicos, trabalhistas ou familiares. Entretanto, um novo estudo propõe um fator psicológico que tem sido sistematicamente ignorado: a solidão.
Um artigo recente publicado na Demography, publicação da nossa editora Duke University Press, apresenta evidências prospectivas que sugerem que pessoas solitárias têm uma maior probabilidade de emigrar internacionalmente, desafiando suposições estabelecidas sobre as causas da migração .
O "Efeito do Migrante Solitário"
A investigação partiu da observação de que os migrantes tendem a relatar níveis mais altos de solidão do que aqueles que permanecem em seu país de origem. A explicação tradicional atribui esse fenômeno aos desafios próprios da migração, como a perda de vínculos sociais, dificuldades de integração e a ruptura das redes de apoio.
O autor propõe que parte dessa solidão não é uma consequência de emigrar, mas sim uma condição preexistente que, precisamente, motiva a decisão de fazê-lo. A esse fenômeno, ele chama de "efeito do migrante solitário", em uma analogia com o já conhecido "efeito do migrante saudável".
Uma Amostra de Mais de 685.000 Pessoas
O estudo utilizou dados de duas rodadas do Monitor de Saúde Pública da Holanda (2012 e 2016), enriquecidos com registros administrativos de emigração. A amostra final incluiu 685.088 observações de cidadãos nativos holandeses, dos quais 2.401 emigraram durante o período de acompanhamento.
A solidão foi medida através da escala De Jong Gierveld, um instrumento validado que avalia a percepção subjetiva da qualidade e quantidade das relações sociais sem utilizar os termos "solidão" ou "solitário", justamente para evitar o sub-registro associado ao estigma.
Principais Conclusões
Os resultados da análise de regressão logística foram expressivos e revelaram que:
- Pessoas classificadas como solitárias tinham aproximadamente 1,27 vez mais chances de emigrar do que seus pares não solitários, mesmo após o controle de fatores como sexo, idade, nível educativo, situação trabalhista e estado de saúde.
- Não foram encontradas diferenças significativas entre aqueles que experimentavam solidão moderada e os que a vivenciavam de forma severa. Ou seja, o limiar da solidão importa mais do que a sua intensidade.
- A solidão associou-se significativamente à emigração para países não vizinhos, mas não para países fronteiriços como a Bélgica ou a Alemanha. Isso sugere que pessoas solitárias podem estar procurando um recomeço mais radical, e não apenas uma mudança para um ambiente próximo.
Implicações para a Pesquisa e as Políticas Públicas
Esses achados têm consequências importantes na forma como se interpreta a solidão entre as populações migrantes. Se uma parte dessa solidão é preexistente à migração e não um produto dela, as intervenções desenhadas exclusivamente para ajudar os migrantes a se integrarem podem estar subestimando a complexidade do problema.
Para os pesquisadores em demografia, saúde pública e ciências sociais, o estudo abre uma linha de investigação pouco explorada sobre a dimensão psicológica e emocional como fator de seleção nos fluxos migratórios internacionais.
Para conhecer os detalhes metodológicos completos, os modelos estatísticos e as análises de robustez do estudo, acesse o artigo original.
Sobre a Duke University Press
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