O cuidado no Parkinson começa na consulta: avaliar o movimento é o primeiro passo antes de decidir o tratamento. (imagem: Vitaly Gariev / Unsplash)
American Medical Association: O Remédio de Parkinson que Abre Outra Fechadura da Dopamina
A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou, em 28 de setembro de 2026, o tavapadon, um comprimido de dose única diária para tratar a doença de Parkinson em adultos, sozinho ou junto com a levodopa. Comercializado como Juvmo, da AbbVie, ele chega com uma promessa diferente: não é mais um remédio, e sim o primeiro a agir por um caminho novo no cérebro.
Essa novidade se apoia em dois ensaios de fase 3 publicados na JAMA Neurology, de nossa parceira American Medical Association — um em pacientes na fase inicial e outro como terapia associada à levodopa —, que é onde convém olhar para separar o avanço real da expectativa.
Uma Fechadura Diferente
A dopamina comanda o movimento ao se encaixar em estruturas chamadas receptores, que funcionam como fechaduras. Existem cinco tipos. Os remédios que imitam a dopamina e são usados hoje — como o pramipexol e a rotigotina — atuam sobretudo nos receptores D2 e D3, que também influenciam a recompensa e o sono; daí efeitos como sonolência, alucinações e transtornos do controle de impulsos. O tavapadon encaixa-se em outras duas fechaduras, a D1 e a D5, ligadas ao início do movimento e com pouca relação com esses efeitos. A aposta é melhorar a mobilidade sem despertar essas reações.
O que os Ensaios Mostraram
Em pacientes na fase inicial, o ensaio TEMPO-1 sorteou 529 adultos com Parkinson recente para receber tavapadon (5 ou 15 mg) ou placebo por 27 semanas. Na semana 26, a função motora medida pela escala MDS-UPDRS (partes II e III combinadas, em que menos é melhor) melhorou de forma marcada ante o placebo: uma diferença de tratamento de cerca de 11 a 12 pontos, com tamanho de efeito grande.
Como terapia associada, o ensaio TEMPO-3 incluiu 507 adultos que já tomavam levodopa e passavam, em média, cinco horas e meia por dia em estado “off”. Com tavapadon, o tempo diário de boa mobilidade sem discinesia incômoda (o “on”) aumentou 1,10 hora a mais que com placebo (1,70 ante 0,60 hora), e o tempo “off” caiu cerca de uma hora a mais que com placebo. É uma melhora clinicamente relevante — da mesma ordem da de outros tratamentos associados à levodopa.
O Ponto da Pressão Arterial
O tavapadon não é isento de reações. No TEMPO-3, os efeitos adversos foram mais frequentes que com placebo (71,7% ante 55,1%), embora na maioria leves ou moderados e não graves; os mais comuns foram náusea, discinesia e tontura. Um ponto pede atenção: a pressão arterial. Ao fim do estudo, a pressão sistólica em pé caiu em média 8,6 mmHg com tavapadon, e a hipotensão ortostática apareceu como efeito adverso em 6,0% dos tratados ante 1,2% com placebo. Os abandonos por efeitos adversos foram quase o dobro (17,1% ante 9,1%). Quanto aos transtornos do controle de impulsos — o principal motivo de abandono dos remédios atuais —, ocorreram em 2,4% dos tratados e 1,2% do placebo, sem aumento de sua incidência segundo os autores.
O que os Ensaios Não Provaram
Aqui está a cautela, e são os próprios autores que a marcam. Nenhum dos dois estudos foi desenhado para comparar o tavapadon com os agonistas D2/D3 atuais nem com outras terapias associadas: por isso não se pode afirmar que ele seja mais seguro ou mais bem tolerado, que é justamente sua principal promessa. O acompanhamento foi curto — cerca de seis meses —, enquanto na vida real o tratamento dura anos; efeitos como os transtornos do controle de impulsos podem surgir muito depois, e só o uso prolongado dirá se o risco é de fato menor. As populações estudadas foram, além disso, predominantemente brancas (mais de 96%), o que limita a generalização. Uma extensão aberta, o TEMPO-4, segue em curso para caracterizar o perfil de longo prazo. No Brasil, o remédio ainda não tem registro na Anvisa.
Os dois ensaios de fase 3 estão publicados na JAMA Neurology: TEMPO-3, terapia associada e TEMPO-1, doença inicial.
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