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Os casos da síndrome de Haff estão associados ao consumo de peixes de água doce (Fonte: iStock). Os casos da síndrome de Haff estão associados ao consumo de peixes de água doce (Fonte: iStock).
Síndrome de Haff: a “doença da urina preta”
  • Artigo
  • Saúde Pública
  • 24/09/2021
  • DotLib, Doença da Urina Preta, Síndrome de Haff, Amazonas

De agosto de 2020 a setembro de 2021, o Brasil registrou 135 casos da popularmente chamada "doença da urina preta", a maioria em alguns estados das regiões norte e nordeste do país. O Amazonas é o líder da lista com 61 casos suspeitos e quatro internações confirmadas.

Após dois anos sem notificações da misteriosa doença, a Bahia registrou 40 casos em agosto de 2020 e notificou outros 18. Em seguida, vem o Ceará, com 9 casos suspeitos em homens e mulheres na faixa dos 51 anos de idade e o Pará, com 6 suspeitas. Até o fechamento deste artigo, nenhum deles resultou em óbito.

No entanto, um caso em Pernambuco gerou a repercussão que fez com que os outros viessem à tona. Com 31 anos, a médica veterinária Cynthia Priscyla Andrade de Souza deu entrada em um hospital de Recife, em fevereiro, quando passou mal após um almoço em família.

Em depoimento à imprensa, Flávia, irmã de Cynthia Priscyla, contou que a veterinária começou a sentir muitas dores musculares apenas quatro horas após ter consumido um peixe típico da região, conhecido como arabaiana. Os médicos a diagnosticaram com a "doença da urina preta" e, depois de 13 dias internada, Cynthia veio a óbito.

Em mais um artigo DotLib, saiba o que é a tal doença — que tem preocupado os brasileiros do Norte e Nordeste — suas causas, sintomas, tratamento e conheça uma fake news (para não cair) sobre a doença.

*É possível que os números de notificações e casos confirmados aqui citados sofram alteração após o fechamento deste artigo. Os dados abrangem somente o período de agosto de 2020 a setembro de 2021.

O que é a síndrome de Haff

Popularmente conhecida como a "doença da urina preta" (um dos seus sintomas), a síndrome de Haff foi identificada pela primeira vez em 1924, na região de Königsberg, então território da Alemanha (atualmente Kaliningrado, Rússia). O nome se deve ao fato de a doença ter afetado os habitantes de um local conhecido como Frisches Haff (do alemão, Lagoa do Vístula).

Quinze anos depois, na mesma região, cerca de 1 mil manifestações da síndrome foram identificadas não só em humanos, mas também em pássaros e gatos que apareciam mortos no dia seguinte à ingestão de peixes.

Os casos geralmente ocorriam nos períodos de verão e outono no hemisfério norte e foram associados ao consumo de certos tipos de peixe, como o Esox lúcio e as enguias.

Ao longo das décadas, foram registrados outros casos da doença de Haff pelo mundo, muitos associados ao consumo da carne de peixes, como o peixe búfalo (Ictiobus cyprinellus), nos Estados Unidos. Em 2010, na China, dezenas de pessoas desenvolveram a rabdomiólise após se alimentarem da carne do lagostim-vermelho (Procambarus clarkii).

A síndrome de Haff é resultado do desenvolvimento da rabdomiólise, e está associada ao consumo de crustáceos e peixes, especialmente os de água doce. A doença ainda é um mistério para a comunidade científica, que trabalha com a hipótese de que seja uma toxina a sua causadora.

Todavia, a origem exata dessa substância e como os peixes a absorvem ainda são um mistério para os pesquisadores. O Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos descobriu que alguns dos peixes relatados como os causadores da doença de Haff possuíam algo em comum: uma toxina de característica lipossolúvel.

Sintomas

Amostra de urina preta

Por ser uma forma rara da rabdomiólise e de origem desconhecida, a doença de Haff manifesta alguns dos sintomas da primeira doença: inchaço e destruição das fibras do músculo esquelético, com risco de insuficiência renal aguda. Esses sinais podem se manifestar até 24 horas após a ingestão de crustáceos e peixes de água fresca, especialmente os de água doce.

Rigidez e dores musculares são decorrentes da destruição das fibras musculares. Outros sintomas comuns são as dores torácicas, dor e sensibilidade à leves toques no corpo, falta de ar, náuseas, vômito e urina com cor amarronzada escura — em alguns casos, descrita como semelhante à cor de um chá ou mesmo de um café.

O escurecimento da urina ocorre pela eliminação anormal de diversas substâncias, entre elas a creatinofosfoquinase (CPK) e a mioglobulina, que são marcadores (ou seja, indícios) de necrose muscular.  

Diagnóstico

Exame de sangue

O diagnóstico se dá pela realização de exames que indiquem a dosagem da enzima TGO — fundamental para a função renal de filtragem de substâncias tóxicas — bem como dosagem de creatinofosfoquinase (CPK). Essa enzima atua na formação dos músculos e pode aparecer em altos níveis, caso haja uma alteração na estrutura muscular, como a provocada pela doença de Haff.

Para o diagnóstico diferencial, a equipe médica deve considerar as toxinas que podem provocar a rabdomiólise, como arsênio, mercúrio e organofosforado.

Tratamento

Soro

Caso os primeiros sintomas apareçam após a ingestão de peixes, é necessário se hidratar com água mineral filtrada em grande quantidade. Dessa forma, além de ganhar tempo, a concentração de substâncias estranhas no sangue será facilmente eliminada pela urina.

No entanto, o tratamento médico-hospitalar é, sem dúvidas, essencial tanto para a rabdomiólise quanto para agravantes, como a doença de Haff. Em geral, são receitados medicamentos diuréticos que favoreçam a eliminação de toxinas presentes na corrente sanguínea, analgésicos que aliviam a dor causada pelo rompimento das fibras musculares, e altas doses de líquidos hidratantes (água, soro fisiológico etc.).

Consequentemente, será possível evitar o agravamento da doença, como falência renal. Nos casos mais graves, o recomendado é a realização de hemodiálises.

Cuidado com as fake news

Fake news

Algumas pessoas têm se aproveitado da repercussão dos casos da síndrome de Haff para gerar ainda mais medo na população, propagando notícias falsas sobre o tema. Algumas publicações em redes sociais vêm alertando para o cuidado com o preparo e consumo de peixes.

Até aí, tudo bem, uma vez que já se sabe que os peixes são os principais portadores da suposta toxina que provoca a síndrome. Porém, de todos os conteúdos sobre a doença, o mais compartilhado vem com outro alerta: o de que o peixe que causa o problema teria um verme nos olhos.

A foto de um peixe supostamente com verme nos olhos e que ilustra a publicação é de 2019 e já foi utilizada em outro boato, desmentido pelo site Boatos.org. Além disso, não há comprovação científica de que peixes com essa característica causem a "doença da urina preta" ou estejam associados a essa condição; da mesma forma, não há comprovação de que peixes sem o tal verme não possam provocar a doença.

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